Em janeiro de 2024, o senador Flávio Bolsonaro se declara evangélico e ele poderia ter escolhido qualquer igreja, qualquer pastor, porque não falta pastor que prega amor e tolerância.
Não falta igreja evangélica onde os fiéis e as lideranças respeitam a fé dos outros e não tratam nada e nem ninguém como território a ser conquistado.
Eu conheço várias e respeito todas.
Mas Flávio Bolsonaro quis ser batizado justamente na Comunidade das Nações, a igreja do JB Carvalho.
E em dezembro de 2025, dois dias depois de lançar a pré-candidatura à presidência, Flávio também escolheu a mesma igreja para sua primeira aparição pública.
Em agosto deste ano, Flávio gravou este vídeo que você deve ter visto.
Eu quero debater com quem não acredita em Deus.
Porque quando eu for presidente, um dos meus primeiros atos será decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo.
Como já havia essa longa história de ameaças e insultos à Aparecida por parte de gente muito próxima ao Flávio, muitos católicos interpretaram essa fala como uma ameaça velada à santa.
Flávio diz que não, que é um exagero e que ele não tem nenhuma intenção de tirar a Aparecida do título de padroeira.
Só que o título é o menos importante nessa história.
O que preocupa é quem está ao lado do Flávio hoje.
Afinal, o bispo da igreja dele escreveu um livro inteiro dizendo que a santa venerada por milhões de brasileiros é a máscara do braço direito de Satanás e que as religiões trazidas pelos africanos escravizados são bruxaria.
Em 2001, em Brasília, um bispo evangélico chamado João Batista Carvalho, conhecido como Bispo J.B. Carvalho, fundador de uma igreja chamada Comunidade das Nações, publicou um livro com o título A Bomba.
A verdade pode ser explosiva.
O livro inteiro defende uma tese.
A Maria, que os católicos veneram, não seria Maria, e sim uma deusa pagã, antiga, disfarçada, que ele chama de Rainha dos Céus e descreve como o braço direito de Satanás.
No livro, JB Carvalho diz que essa deusa pagã se mascara com o nome de Aparecido e chama a imagem que os pescadores tiraram do rio de imagem escura de uma deusa.
Repara que ele faz questão de falar da cor na mesma frase em que desqualifica Aparecido.
Depois ele culpa a padroeira pelos problemas do país.
Segundo o livro, depois que ela virou padroeira, o Brasil afundou na recessão com inflação seca no Nordeste e criminalidade.
E aí vem a proposta política.
O bispo diz que a lei da padroeira é ilegal e que o feriado de 12 de outubro também é.
E escreve, está na hora de destronarmos a rainha em nossa nação.
No fim do livro, o bispo cobra que deputados e senadores tomem posição para que o Brasil não tenha mais aparecida como padroeira.
Nesse mesmo trecho, ele diz que essa é a vontade do povo cristão.
Ou seja, numa mesma tacada, ele pede para a Aparecida deixar de ser a padroeira e fala em nome de todos os cristãos.
Como se os católicos, ou quem venera a Aparecida, não fossem cristãos também.
Dez anos depois do livro de JB Carvalho, a ideia dele chega ao Congresso.
Em dezembro de 2007, o deputado federal, Victório Galli, de Mato Grosso,
apresentou um projeto de lei para que a aparecida perdesse o título de padroeira do Brasil.
O projeto foi rejeitado e arquivado em 2008.
Em fevereiro de 2019, Vitório Gali foi nomeado assessor especial da presidência da República no governo Jair Bolsonaro.