Ainda sobre eleições, mas uma história pessoal
Postado por Alicia Klein em 22/10/2026. Ver o post original
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Tentando pela oitava vez gravar esse vídeo sem chorar, mas tá difícil.
Eu tenho vindo falar muito sobre eleições aqui com vocês, mas hoje eu queria trazer um depoimento pessoal, contar uma história da minha família sobre a qual eu nunca falei publicamente em detalhes.
Esse aqui da foto, pequenininho, da frente, é o Hans, o meu avô, junto com o irmão dele, o Rudi, numa das últimas fotos que a minha bisavó tirou dos filhos antes de fugir da Alemanha nazista.
Dá pra ver a suástica aqui atrás deles na foto.
Ela sempre foi ateia, mas de família judia, uma família que inclusive tinha escapado para a Alemanha para fugir da perseguição aos judeus.
Em 1933, com a ascensão do Hitler ao poder, quando 20 mil livros foram queimados na Alemanha, ela entendeu os sinais e percebeu que era melhor ir embora e não arriscar a vida dos filhos.
Ela só conseguiu fazer isso em 1935 e sozinha, porque o marido dela, meu bisavô, entendeu que era um exagero, que não ia acontecer nada e que se ela fosse, fosse só com os meninos.
E eu hoje, como mãe, imagino como deve ter sido para ela,
Sozinha, de repente, mãe solo, um menino de 9, um menino de 12, embarcar num navio rumo a um país onde ela não conhecia ninguém, cujo idioma ela não falava, e tendo seu único documento cancelado já no embarque.
A minha bisavó ia ficar 40 anos apátrida.
O meu avô e meu tio-avô nunca se reconciliaram com a Alemanha, se naturalizaram brasileiros e se estabeleceram aqui.
Talvez isso pareça um exagero enorme pra você, inclusive uma coisa muito distante.
E não é distante, né?
O meu pai, esse aqui da foto, aliás, foi criado por uma criança que viveu a Alemanha nazista.
Segundo, a minha bisavó também foi tratada como uma exagerada quando ela decidiu ir embora, ninguém imaginava o horror que estava por vir, mas ela imaginava que alguma coisa ruim estava por vir, mesmo para pessoas privilegiadas, mesmo para pessoas brancas, mesmo para pessoas de classe média, média alta, o horror ia bater na porta
E mesmo os grupos que não foram perseguidos viveram a destruição da guerra, a fome, a morte, inclusive o meu bisavô, que ficou pra trás e acabou morrendo em abril de 45 num dos últimos bombardeios a Berlim.
Se isso tudo parece um exagero pra você, e se a alusão que o próprio PL fez comparando
Uma imagem do Flávio Bolsonaro, uma imagem do Mussolini, se tudo o que está acontecendo na extrema direita no mundo inteiro, inclusive aqui no nosso continente, não te comove, eu te digo, a história se repete e os sinais estão aí.
A gente está diante de uma escolha em que tem um candidato, o Lula, do PT, com todos os seus defeitos, que nunca ameaçou a democracia, em que as pessoas conquistaram direitos.
Do outro lado está um candidato de uma família que fala abertamente em mudar a nossa Constituição, que defende milícia como se fosse policiamento, que já falou em tirar direitos, que trata a mulher como patrimônio sexual.
A gente está falando de pessoas que têm visões muito diferentes do que é família e do que é democracia.
Então, como alguém que só está aqui hoje, porque na minha família teve uma mulher que conseguiu entender cedo que as coisas iam dar errado, que teve condições de comprar três passagens de navio e vir para o Brasil, está aqui no Brasil hoje,
100 anos depois do nascimento do meu avô, pensando que a gente tá abrindo a porta pro fascismo de dentro, convidando o fascismo a entrar no nosso país, que acolheu tanta gente, me entristece muito.
E aí eu peço pra você, não corra esse risco.
Não deixa a gente descobrir o que acontece quando o Brasil abre a porta pro fascismo.
Vamos seguir na democracia, tentando sempre melhorar, combater a corrupção e ter sistemas cada vez mais fortes e mais democráticos.
Mas não vamos deixar a história se repetir aqui dentro da nossa casa.
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