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Depoimento de quem viveu a pandemia: 'eu nunca vou esquecer'

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Relata a perda de pacientes na pandemia e diz que não vai esquecer a cloroquina vendida como remédio e o deboche com quem sofria com a doença.

Postado por Jane 💫 🌺 em 08/10/2026. Ver o post original

O que é falado no vídeo

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Pra mim é muito difícil falar disso. Eu nunca vou esquecer o primeiro paciente com Covid que eu entubei na pandemia.

Eu vou chamar ele de Luiz. Ele tinha mais ou menos uns 40 anos e ele chegou muito cansado.

A saturação de 78%. Ele era grave, ele era muito grave.

Naquele momento a gente ainda não tinha várias das ferramentas e conhecimentos que vieram depois.

Não existia a Elmo, existia a ciência que a gente sabia até ali e a nossa coragem de lidar com tudo aquilo.

E eu lembro muito claramente de olhar pro Luiz e enxergar o medo nos olhos dele.

E eu não sei se ele conseguia enxergar o medo nos meus também.

Mas tava todo mundo com medo.

Ele contou rapidamente que o pai, a mãe e o irmão também já tinham sido entubados.

E eu sabia que existia uma chance muito real dele não sair vivo daquela internação.

Eu expliquei pra ele que ele precisava ser entubado, que ele tava muito cansado.

Que o corpo dele provavelmente não ia conseguir sustentar aquilo por muito mais tempo.

E aí ele começou a chorar muito.

Ele tava apavorado.

E eu também tava muito assustada.

Eu só não podia chorar naquele momento.

E aí eu pedi, Luiz, pega teu celular.

Era pandemia, era isolamento.

Ele tava sozinho.

Ele não tinha esposa do lado dele.

Ele não tinha mãe, não tinha ninguém pra segurar a mão dele.

Aí eu falei, liga pra tua esposa agora.

Fala pra ela tudo que você precisa falar.

Esse momento é muito importante.

Eu não consegui ficar dentro do quarto nessa hora.

Eu saí, fui respirar fundo.

Eu fiquei repetindo pra mim mesma.

Eu não posso chorar, eu não posso chorar.

Eu não posso chorar, eu preciso ser forte.

Eu preciso salvar ele.

E aí, do lado de fora, eu conseguia ver ele chorando.

Uma chamada de vídeo com a esposa, dizendo que amava ela.

Eu voltei, perguntei se ele tava pronto.

E a gente seguiu pra intubação.

E entubar um paciente com Covid naquela época era uma roleta russa.

A gente não sabia o tamanho da merda que ia dar até sedar o paciente.

A saturação despencava.

O Luiz ainda tinha uma viagem difícil, horrível de intubar.

Ele quase teve uma parada cardíaca nessa intubação.

Mas a gente conseguiu.

E aí, depois da intubação, começava outra batalha.

Que era fazer o paciente oxigenar.

Muito do que virou rotina, assim.

Depois que a gente foi aprendendo ao longo dos tempos, né.

De posicionamento, de ventilação.

De pronar o paciente.

Era tudo acontecendo enquanto a gente tava cuidando das pessoas.

Naquele dia, o Luiz sofreu muito.

Dias depois, eu soube que ele morreu na UTI.

Depois dele, vieram muitos.

Centenas.

Centenas de milhares de famílias.

Viveram alguma versão da casa histórica.

E com o passar dos dias, a nossa casca foi engrossando.

Porque ela precisava engrossar.

Os necrotérios lotados.

As estruturas improvisadas de tanto corpo.

Que a gente empilhava.

Gente morrendo sem conseguir ter a família do lado.

Eu tava no meu primeiro ano de residência de medicina de emergência.

E também era meu primeiro ano de médica.

E foi provavelmente o maior intensivo de medicina que eu poderia ter vivido.

Na minha vida.

De via aérea.

De paciente crítico.

De incidentes de múltiplas vítimas.

De gestão de caos.

De tomada de decisão.

De estabilidade emocional.

De trabalho em equipe.

Equipe.

Essa é uma palavra que resume a pandemia pra mim.

Porque família.

Eu não podia nem abraçar a minha.

Minha mãe já era mais velha.

Tudo que eu queria depois de alguns daqueles plantões.

Era chegar e poder abraçar minha mãe.

Mas eu não podia.

Porque eu jamais me perdoaria se eu levasse aquela doença pra dentro de casa.

Então eu chorava.

Eu vi amigos adoecendo mentalmente.

Eu vi gente trabalhando enquanto tinha o próprio pai ou a própria mãe internados.

Eu vi profissionais passando muito além do limite que um ser humano deveria suportar.

Gente ficando horas e horas porque simplesmente não tinha que entrar assim no lugar pra trabalhar.

Porque as pessoas adoeciam.

Algumas não aguentavam mais.

Algumas estavam vivendo o luto dos próprios familiares.

Tinha gente que tinha medo.

Então nem ia trabalhar.

E no meio disso tudo a gente tinha uns aos outros.

Os médicos, os residentes, os enfermeiros, os técnicos, os fisioterapeutas, os maqueiros.

Todo mundo tentando manter gente viva enquanto também tentava não desmoronar.

Eu trabalhei.

Eu adoeci.

Eu aprendi.

Pra caralho.

Eu convivi muito, mas muito de perto com a morte.

E a pandemia me mudou profundamente.

A pessoa que eu sou hoje.

Quando eu falo assim, bora viver.

Não é só uma frase bonitinha que eu boto todo dia não.

É porque pra mim a vida virou urgente de verdade.

A gente não sabe quando vai ser a última ligação.

Último abraço.

A gente não sabe a última vez que vai conseguir dizer eu te amo pra alguém.

A gente acha que tem tempo.

Até não tem.

Porra, o Paulo Gustavo morreu de Covid.

Às vezes eu penso o quanto ele estaria puto vendo certas coisas que estão acontecendo hoje.

Eu não estou dizendo que Covid não era uma doença avassaladora, não.

Era.

Eu vi isso muito de perto.

Mas uma das coisas que mudou completamente o rumo daquela pandemia foram as vacinas.

Quando elas chegaram, pela primeira vez, a gente tinha uma ferramenta capaz de reduzir a forma muito importante da doença grave e morte.

Aquilo deu esperança pra gente.

Hoje, pra grande parte das pessoas, o Covid é uma doença muito menos devastadora do que era naquele começo.

Isso aconteceu porque a gente acumulou imunidade, principalmente com a vacinação.

Então, se você perdeu alguém na época, um pai, uma mãe, um amigo, um colega, alguém que morreu do teu lado,

não esquece, não esquece da desinformação, não esquece da merda, da cloroquina sendo vendida como resposta,

enquanto a gente desesperadamente precisava de vacina, de ciência, de estrutura.

Não esquece de quem tratou o sofrimento de tanta gente com deboche.

Não esquece de quem imitou falta de ar, enquanto dentro dos hospitais a gente via gente de verdade sem conseguir respirar.

E quando eu lembro daquela época, e quando eu lembro do Luiz, eu não consigo simplesmente pensar

Ah, mas do jeito que tá, não dá pra ficar.

Eu não consigo tratar aquilo como uma lembrança distante.

E eu acho que eu apaguei muita coisa da minha memória, porque é muito pesado lembrar.

Mas algumas coisas eu não apaguei.

E eu não vou apagar.

Eu acredito na ciência, eu acredito no SUS, eu acredito em saúde pública,

eu acredito em cuidado baseado em evidência, eu acredito em direitos.

E por tudo que eu vivi naquela pandemia, meu posicionamento político é muito claro.

Eu não consigo votar pela volta daquele governo, porque eu não esqueci, eu nunca vou esquecer.

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