Filha de Marielle: milícia é rede de poder, não só segurança pública
Postado por Instituto Marielle Franco em 19/10/2026. Ver o post original
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O Brasil precisa conhecer a milícia.
Eu fico me perguntando se as pessoas têm dimensão da brutalidade, sabe?
Porque eu só fui entender de verdade quando afetou a minha família e a vida da minha mãe.
Eu sou Leara Franco, filha de Marielle Franco, e antes de 2018, eu achava que sabia o que era milícia.
Eu lia as notícias, via os jornais, sabia que eram grupos armados que controlavam bairros inteiros, cobravam dinheiro e controlavam as pessoas.
Mas entender de verdade o tamanho do poder das milícias veio depois.
O caso da minha mãe do Anderson empurrou pra mim e pra minha família uma luta por justiça que durou sete anos.
O caso teve resposta.
Os envolvidos estão presos.
Mas isso não é regra.
A maioria desses casos não chega a esse ponto.
E aí fica a pergunta que o Brasil precisa fazer.
Por que tantos casos não chegam na verdade e na justiça?
Porque não estamos falando apenas de criminosos armados.
Estamos falando de uma rede de poder que pode envolver policiais, ex-militares, bombeiros, agentes públicos e muitos políticos.
Pessoas que podem usar de dentro do Estado as mesmas relações e formações, estruturas que deveriam ser para servir a população e usam para se proteger.
E sério, a gente não sabe o tamanho disso.
Primeiro a gente vê a notícia de um policial corrupto aqui, depois a notícia de um político que emprega a família desse policial ali.
Depois aparece uma investigação, algumas denúncias, vemos fotos com um monte desses caras juntos e tudo parece desconectado.
Mas a verdade é que não está.
E é justamente por isso que a milícia não pode ser tratada como apenas um problema de segurança pública do Rio de Janeiro.
A milícia é uma prática e ela tem um projeto de poder que não acaba aqui.
O que está em jogo é a nossa capacidade de proteger o Brasil disso e impedir que as estruturas públicas se transformem em instrumentos de interesses criminosos.
E eu estou falando isso porque eu vivi na pele.
Para ser sincera para vocês, eu nem queria estar aqui.
Todos os planos que eu fiz pra minha vida antes de 2018 não envolviam trabalhar com os mesmos assuntos que minha mãe trabalhava, ainda mais podendo me colocar em risco.
Mas depois de tudo o que aconteceu, eu não consigo olhar pro momento que vivemos como se fosse apenas uma disputa política.
E eu não posso aceitar que o Brasil só entenda o tamanho desse problema depois que ele chegar à sua porta.
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