Eu aceito ser governado por um idiota, por exemplo.
A democracia me obriga a suportar esse risco.
Também aceito perder para quem eu acho pior.
Aceito quatro anos de decisões que me revoltam.
Aceito ver milhões de brasileiros comemorando exatamente o que eu lamento.
Faz parte.
O que eu não aceito é correr o risco de, junto com a derrota, perder o direito de tentar vencer na próxima.
Eu preciso ter certeza de que vai ter uma próxima.
Não posso abrir mão disso.
E esse é o principal motivo que me fez votar no primeiro turno e vai me fazer votar de novo num candidato que sim, eu considero ruim.
Não vou fingir que os defeitos deles são pequenos porque o outro é pior.
Mas tem defeitos que a democracia consegue enfrentar.
Demagogia, incompetência, corrupção, irresponsabilidade e existem outros defeitos que destroem as condições que tornam a própria democracia possível.
Essa é a diferença central.
Não saber perder é o pior dos defeitos.
Quem aceita governar uma democracia aceita ser mandado embora por ela.
Não interessa se o sujeito acha que é ungido por Deus, se milhões de bajuladores o aplaudem, se o outro grupo é um desastre, não importa.
O presidente recebe a chave de uma casa que não é dele, se não foi reeleito, devolve a chave a Deus.
E outra, a maioria tem o direito de governar, não tem o direito de decidir quem merece direitos.
Qual família é família de verdade?
Que tipo de amor é digno de respeito?
Qual pronome uma pessoa deve usar?
Que religião é a mais correta?
Aliás, um presidente pode entregar a própria vida a nosso Senhor Jesus Cristo, claro, é uma escolha dele, mas não pode entregar ao Brasil, que talvez não seja a escolha de 200 milhões.
Maioria governa o país, não governa a vida dos outros.
E mesmo com maioria, o presidente não tem que ser forte demais.
Ao contrário, tem que ser fraco bastante pra não conseguir fazer tudo o que quer.
E pra isso existem congresso, justiça, imprensa, oposição.
Podem ser imperfeitos, asquerosos em alguns momentos, mas são a garantia de que o presidente não pode tudo.
O presidente é livre pra discordar, pra recorrer, mas não pode arrancar desses contrapesos o poder de dizer não pra ele.
Sobre o meu candidato, os defeitos dele vão continuar lá se ele vencer.
E olha, eu não vou me calar sobre eles.
Acho ridículo esse contrato de lealdade entre quem dá o voto e quem recebe o voto.
Não tem cabimento passar quatro anos inventando cambalhota retórica pra defender todo tipo de desatino de um cara que, na prática, trabalha pra mim.
É o contrário.
Se eu ajudei a eleger o sujeito, a dívida é dele comigo.